DA CELULITE DE ANITTA ÀS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO

Recentemente fomos surpreendidos com uma grande polêmica nacional a respeito de uma artista que vai ganhando fama: é lançado o novo videoclipe da , “”. Logo a celulite, a cultura periférica e o empoderamento do corpo da mulher periférica se tornaram temas de longos textos que pretendiam erguer um verdadeiro debate.

            Pouca atenção foi dada ao fato de que o diretor do videoclipe havia sido denunciado por assédios cometidos contra mulheres ao exercer sua profissão como fotógrafo de moda. As primeiras denúncias são de 2010, ao que se somaram novas [1], resultando inclusive em seu banimento de revistas internacionais como a Vogue em outubro do ano passado, 2017 [2]. Terry Richardson, seu nome, não deveria ser associado à nova estrela do pop mundial, Anitta, e por isso se optou por… atrasar o lançamento do videoclipe até que baixasse a nuvem de poeira das últimas denúncias recentes. [3]

            Disse a cantora:

            “Imediatamente após tomar conhecimento sobre as acusações de assédio que envolvem o diretor Terry Richardson solicitei que minha equipe avaliasse o contrato para verificar o que juridicamente poderia ser feito. Estudamos todas as possibilidades, que foram além das questões jurídicas, passando também pelo envolvimento emocional, levando em consideração o imenso trabalho digno de todos os artistas e colaboradores que de alguma maneira fizeram este clipe acontecer. Esse não é um trabalho de uma pessoa só. Manterei minha promessa aos moradores do Vidigal e aos meus fãs lançando o clipe de ‘Vai Malandra’ em dezembro deste ano. Mostrando um pouco das minhas origens e mais sobre o funk carioca, do qual me orgulho muito de ser representante” [4]        

            Não é particularmente chamativo que as estrelas pagas pela sejam completamente incapazes de conciliar o tipo de trabalho que fazem com a coerência subjetiva vendida aos fãs como se de “personalidade” se tratasse. O lançamento de um videoclipe já gravado pouco importa. A miséria cultural está no culto que boa parte dos e das “progressistas” mantêm por figuras tão toscas como a de uma artista incapaz de tomar as decisões relevantes a respeito de seu trabalho. A decisão importante aqui não é a de “lançar ou não lançar” o clipe, o que certamente não estava nas mãos da cantora mas sim dos advogados. A decisão importante é tão óbvia como a escolha de um diretor. Não é demais lembrar que o diretor não é apenas responsável pelo “estilo” do produto audiovisual, mas detém um poder hierárquico enorme em um set: alguém a quem se dá um poder sobre um pequeno batalhão de e trabalhadoras.

            Quantos e quantas não foram aqueles indivíduos, ou melhor dito, cidadãos!, que correram para tecer comentários, análises, interpretações, elogios, críticas sobre o videoclipe com uma profundidade de análise que parou em uma enorme bunda, na cor da pele das pessoas, no cenário de fundo. Mas cabe, como sempre caberá, a pergunta: por que? Por que parece ser que mais da metade do país está assistindo o mesmo videoclipe? A resposta, para quem ainda é tão jovem e a necessita, é o dinheiro. Pois além da bunda, da pele e do cenário, há uma produtora, “Mangaba Produções”: 30 horas de gravação, set com mais de 120 almas, aluguéis, caminhão, ida e volta do gringo que veio cantar 50 segundos, dos técnicos estrangeiros (entre os quais o diretor), etc. E qual é a outra especialidade desta produtora, senão a… indústria da moda feminina [5]. Opção no mínimo intrigante para filmar uma “bomba semiótica ‘periférica'” que questionaria o padrão de beleza da bunda feminina. E tem mais. O “styling” do clipe vai assinado por Yasmine Sterea. Eis seu currículo:

“Nascida no , Yasmine Sterea tem 31 anos, 10 deles dedicados à moda e imagem.  Mestre em Fashion Design pelo Instituto Marangoni de Londres foi na capital inglesa que começou sua carreira, ao lado da designer de sapatos Charlotte Olympia e do designer de acessórios Tom Binns.

Em seu currículo coleciona inúmeras campanhas e capas com os nomes mais importantes da indústria: Gisele Bündchen, Naomi Campbell, Cara Delevigne, Rihanna, Mario Testino, Arthur Elgort, Amanda Charchian, Patrick Demarchelier, Giovanni Bianco, Wallpaper, King Kong, Harper’s Bazaar UK, Vogue UK, Vogue Rússia, Vogue Taiwan e Vogue (foram mais de 20), além de campanhas internacionais pra Uniqlo, Linda Farrow, Intermix, Ciroq – e brasileiras, como Vivara, Amsterdam Sauer e Animale.

(…)

Recentemente fundou a YS Creative Studio, empresa especializada no mundo da moda, lifestyle e entretenimento que arquiteta minuciosamente a construção da imagem e/ou produto de marcas através de um trabalho conjunto explorando ao máximo a criatividade.” [6]

            Logo vemos que a atual representante oficial da cultura da mulher periférica está rodeada de empresas e empreendedores da moda oficial mainstream.

            Este é o som que boa parte da juventude dança hoje. E boa parte desta juventude se considera progressista, quem sabe até de esquerda; muitos e muitas devem considerar-se feministas e críticas do padrão imposto pelas grandes revistas internacionais de moda. Que grande capacidade do de nos fazer adorar os produtos de nossos inimigos! E muitos destes jovens devem odiar a rede Globo pela sua capacidade de pautar os debates nacionais, pela incapacidade do povo de questionar o que ela veicula, pela forma como a rede Globo têm um pequeno exército de comentaristas que tomam fatos pouco relevantes e passam dias e dias tecendo “comentários, análises, interpretações, elogios, críticas…”. Na minha humilde opinião, creio entender um pouco do que se trata esta tradição imperial brasileira: Dom Pedro impõe e logo os miseráveis intelectuais aspirantes a alguma proximidade com o poder passam a maquinar uma infinidade de interpretações e análises que justifiquem o que há, para júbilo do monarca. Metralhadora interpretativa, efusiva como um bom puxa-saco que elogia um quadro horrível adquirido pelo imperador com seu tema predileto.

            Isto não é exclusivo do mundo das artes. É idêntico ao que ocorre na política, e não é obra do acaso.

            Mais além das cômicas justificativas para alianças espúrias (sempre na forma de mil interpretações sobre a “governabilidade” e a “estratégia genial” de “um cara que sabe mais de política do que eu”)… Por acaso não é o feminismo mais liberal aquele que não vê nada de errado em se criar uma representação da mulher periférica utilizando-se de meios empresariais, inclusive aqueles ligados com o centro da padronização mundial, a indústria da moda? Por acaso não é o ativismo cultural mais liberal aquele que acredita mais no produto (a ser vendido) do que nas relações sociais implicadas na produção e no produto da arte? Por acaso não é uma política de conciliação o tentar aliar-se ao suprassumo ideológico do centro cultural para expressar a periferia, as mulheres, uma suposta ruptura com os padrões estéticos históricos?

            Não se pode esperar muito da massa de cidadãos e sua relação com os produtos oferecidos diariamente pelos meios de comunicação. Poderíamos esperar, sim, um pouco mais da esquerda brasileira, inclusive de militantes, jovens ou não, que cedem ao canto da sereia de uma suposta “música popular” como se sinônimo de música de pobre fosse. Como se escutar este tipo de mercadoria nos aproximasse das massas. Se fossem coerentes diriam que comida orgânica é elitista e tomariam Kaiser todo fim de semana. Estaremos assim realmente tão faltos de artistas, nosso critério é realmente assim tão baixo? Nossa preguiça é tão grande que aceitamos de bom grado adaptar nossos gostos e experiências ao que nos é oferecido pelo mercado?

                     

[1] https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/gente/noticia/2017/12/terry-richardson-diretor-de-vai-malandra-acumula-denuncias-por-crimes-sexuais-cjbdyaiho01kr01p9smc7003b.html

[2] http://www.telegraph.co.uk/news/2017/10/23/exclusive-terry-richardson-banned-working-vogue-leading-mags/?utm_source=dlvr.it&utm_medium=twitter

[3] http://www.purebreak.com.br/noticias/anitta-confirma-lancamento-de-vai-malandra-apos-acusacoes-de-assedio-do-diretor/65017

[4] idem.

[5] https://www.instagram.com/mangabaproducoes/

[6] http://denisecursino.com.br/2017/12/18/bastidores-clipe-anitta-vai-malandra-mangaba-producoes-e-yasmine-sterea/

 

Fonte da Imagem: https://goo.gl/aJhKTM

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