PARAGENS EFÊMERAS: A PONTE SEM SAÍDA

Quando alguém nos chama de longe geralmente não percebemos o quão importante é este . Ouvir nosso nome atravessar as ruas, trazido pelos ventos até nossos ouvidos, faz toda a diferença do mundo. O grito que vinha do outro lado da ponte retirava Rubens de toda concentração que somente aquele lugar lhe proporcionava, fazendo-o deslocar-se inesperadamente para outra fonte de inspiração, Bianca, por quem ele nunca deixará de se apaixonar. Rubens e Bianca reataram o contato como na época em que eram calouros da universidade e do amor, ávidos por debaterem questões metafísicas, mesmo sem a devida fundamentação. O racionalismo de Bianca era o mesmo dos tempos de universidade, e toda a sua paixão pela poesia não a deixava perder o fio das argumentações racionais, enquanto Rubens fazia questão de contrariá-la com sua imaginação sem limites, algo que fazia deles um casal fascinante.

Rubens atravessou a ponte ao ouvir a voz de Bianca como se não acreditasse no que estava ouvindo, abraçou-a e disse-lhe frases que havia colecionado para o momento em que o acaso os reaproximasse. Bianca preferiu sentir o calor daquele abraço, sabia que as metáforas eram a grande arma sedutora de Rubens, preferiu abraçar o silêncio como forma de demonstração de sua saudade, de seu amor. Enquanto se abraçavam, a ventania parecia querer jogá-los no rio, a ponte parecia balançar com a força do vento e do abraço que não tinha fim. As pontes e os abraços têm a mesma essência, não se conformam nas margens das coisas, são extensões de coisas profundas, possuem a vibração das correntezas. Ninguém passa duas vezes sobre as pontes de um mesmo rio, cada abraço envolve-nos de outra maneira. Os olhares dos dois se misturavam mais que seus corpos, vibravam como as águas do rio, aproximava-os mais que pontes costumam aproximar.

O desejo do reencontro era tão grande que ambos ficaram contemplando a ideia desse momento. Pensavam mais no desejo do que no encontro que ocorria naquele instante. Amavam tanto essa ideia que esqueciam de concretizá-la. Os dois se desejavam tanto que as realidades para eles não passavam de olhares que trocavam a todo o momento. Tais olhares os seguiam por toda a parte, eles nem mais pensavam um no outro, mas no olhar de um para com o outro. Quando estavam juntos, requeriam espaços em que pudessem exercer livremente a arte de se contemplarem por dentro.  Aquele amor precisava das praças, das margens dos rios, de lugares românticos onde pudessem cultivar a embriaguez que os retirava do mundo real. Apenas estes locais faziam sentido para eles, e desses locais o Recife está repleto, como poucas cidades do mundo, ou quase nenhuma. Por onde passavam procuravam encontrar espaços feitos para os dois se amarem, procuravam reconhecer nos lugares algo que tivesse relação com o amor que sentiam, como se as construções tivessem por finalidade os casais apaixonados.

Rubens tentou beijá-la, mas ela resistiu. Bianca considerava aquele momento sublime, não queria profaná-lo com um erotismo impulsivo. Eles passaram a noite toda conversando, não perceberam que já estava chegando a madrugada. Só interromperam a conversa para comprar um vinho, que tomaram silenciosamente enquanto contemplavam o rio. Aquela noite parecia mágica, as palavras que saiam de suas bocas pareciam ter sido tiradas de livros de poesias, planejadas exclusivamente para aquele momento. Eles chegaram a se perguntar o que estava acontecendo com eles, o que significava aquele encontro inesperado e tão profundo. Chegaram à conclusão que a razão de tudo aquilo estava na ponte, que sempre elegeram o local mais romântico de Recife. Não há dúvida que todas as pontes são românticas, mas as de Recife dão sentido à cidade, sem as quais não haveria razão de existir.

Eles estavam realizando um sonho. Primeiro o de se reencontrar, segundo o de serem acolhidos pela ponte, como mendigos que as utilizam como meio de moradia. Os pescadores se despediram deles, os meninos de rua pediram-lhes dinheiro para comprar comida. Os amantes de todas as idades e de várias opções sexuais olhavam para trás sem saber o que se passava com aquele casal tão concentrado naquele local. Alguns chegaram a pensar que se tratava de suicidas, que pretendiam se jogar no rio. Mas a maioria achava normal, que aquela ponte era o local perfeito para a solução dos problemas amorosos. Ao relento, as pontes nos protegem de tudo, mas ninguém as protegem de nada.

Rubens se perguntava como podia atrelar o seu destino aquela ponte. Bianca relembrava da infância, dizia que desde criança aquela ponte causava-lhe grande comoção. Os dois começaram a chorar pela ponte, sofriam por ter que se despedir daquele lugar. Enquanto as lágrimas escorriam em suas bocas como beijos, seus olhares se entrelaçavam mais que línguas em bocas de casais apaixonados. Em silêncio, ouviam apenas a correnteza do rio e o grasnir do vento que era mais poético que qualquer forma de linguagem. Eles achavam que as palavras namoro e casamento não abarcavam a realidade sentimental que um nutria pelo outro. Então começaram a falar sobre o amor. Começaram por questionar existência desse sentimento. Como num diálogo platônico não perceberam que o dia já estava quase raiando e eles não conversaram ainda sobre o que mais lhes interessava. Se perguntavam o porquê de os amantes não dedicarem todas as noites para a ponte no lugar de se trancafiarem em quartos onde não encontram inspiração para falar do amor?

Apesar de conceber aquela pergunta como mais uma demonstração do talento literário de Rubens, Bianca acabou dando-lhe razão. Mas estavam durante horas naquele “templo sagrado” para os enamorados sem chegar a nenhuma conclusão sobre o amor. Bianca perguntou a Rubens se ele amava mais a ponte do que a qualquer outra pessoa, ele ficou sem saber responder. Mas isso não a perturbou, ela sabia a dimensão existencial daquela edificação tão nobre, que para eles simbolizavam o local perfeito para os casais andarem de mãos dadas.

– Será a solidão antagônica ao amor? Não formariam ambos um par perfeito?

Rubens não compreendeu onde Bianca queria chegar com aquela pergunta. Tantos poetas solitários definiram tão bem o amor e a própria separação deles só fizera recrudescer o amor entre eles. As pontes são ao mesmo tempo solitárias e símbolos de união. Mas Rubens não conseguiu acompanhar o raciocínio de Bianca. Depois de tanto silêncio, Bianca começaria a fazer apologia à solidão? Isso deixou Rubens atônito, enquanto Bianca decepcionara-se com o fato dele não compreender sua inquietação. Aquele não era um momento para explicações, mas para sensações. Ambos estavam tão cheios de si, tão crentes em suas maturidades psicológicas, que não se permitiam perder tempo com longas preleções diletantes. Uma atitude professoral por parte de qualquer um dos dois estragaria por completo aquele momento único em suas existências. Preferiam acabar com tudo a ter que dar lição de filosofia. Eles se despediram e se sentiram felizes por terminarem daquela maneira.

Rubens nunca perdoou Bianca, Bianca sentiu pena de Rubens. Nunca voltariam a se reencontrar. Um tirou o outro da cabeça, mas não aquele momento, aquela ponte. Apesar de sempre caminharem sobre ela, nunca se esbarraram. O acaso não lhes deu uma segunda chance. Mas eles também passaram a evitar o acaso, não queriam voltar a se reencontrar. Eles se amavam, mas preferiam não acreditar nessa possibilidade. Enquanto a ideia de ponte estivesse em suas cabeças, era a prova de que continuavam se amando. A recordação do amor era mais importante que amar. O amor transformado em ideia parecia ser mais forte que a rotina dos casais apaixonados.

Freud diria que isso é um mecanismo de transferência, mas o amor nunca pôde prescindir de transferências. Muitas pessoas se amam sem a menor consciência disso, enquanto outros preferem conscientemente escapar desse sentimento. Passamos a vida esperando um amor, mas o amor também espera por nós, que nunca chegamos. Tardamos mais que o amor, somos mais imprevisíveis que ele. Não apenas o sexo precisa ser sublimado, o amor também necessita desse recurso. Sublimar o sublime é a coisa mais difícil de fazer.

Que as pontes formam labirintos nas cabeças de todos recifenses, isso é inegável, mas no caso de Rubens, tratava-se de uma ideia fixa, neurótica. Ele associava tanto a ponte ao amor que passou a colecionar experiências amorosas obtidas sobre pontes de vários lugares. Viajou várias cidades do mundo para satisfazer sua obsessão. Chegou a fantasiar loucuras eróticas sobre pontes, aventuras que lhe realizaram sexualmente, mas sem trazer-lhe o amor que apenas uma mulher lhe despertara. Bianca criara verdadeira aversão contra as pontes. Quanto mais as evitava, mas pensava em Rubens. Teria de superar esse trauma das pontes para reencontrar-se com o seu verdadeiro amor.

Os desencontros só podem ser sentidos pelos que amam de verdade, quanto mais nos desencontramos do ser amado, mais sabemos o que é o amor. Bianca resolveu frequentar cotidianamente a ponte que Rubens mais amava, tanto insistiu que o encontrou, mas ele estava acompanhado. Não pôde gritar seu nome, percebera o quanto é importante as pontes para um casal apaixonado. A visão de Rubens enamorado pela ponte e por uma mulher a fez reviver os melhores momentos de sua vida, ela se convertera novamente ao universo mágico que remontava a seu primeiro romance.  As lembranças daqueles olhares, de como se cruzavam para se fixarem em algo de eterno que indubitavelmente haveria entre eles removeu todo pessimismo de sua cabeça.

Sair de casa para se encontrar com as pontes tornou-se habitual para Rubens e Bianca, mas também um pretexto ora de encontros, ora de desencontros. Estavam tão perdidos de amor que não conseguiam esperar muito tempo em busca do acaso, sobre as pontes. Depois de várias tentativas eles se reencontraram. Olharam-se como sempre nos olhos, só enxergavam os olhares um do outro. A delicadeza das pontes facilitava esse encontro de olhares. Não tiveram coragem de se falar, mas se perseguiam com os olhos. Seguiram para a próxima ponte, se olharam e seguiram adiante, rumo à outra ponte. Após se cruzarem por quase todas as pontes, só restava a ponte de ferro, a mais excêntrica do Recife.

Eles sempre evitavam essa ponte, mas dessa vez só restava essa. A estrutura metálica da ponte de ferro parece não ser permeável aos olhares cúmplices dos amantes. A ponte mais decadente do Recife é a mais fascinante do ponto de vista amoroso. Trata-se de várias pontes numa única ponte, ela possui diversas entradas. Por ela circulam vagabundos, solitários, casais apaixonados, mendigos, pescadores, meninos de rua, travestis e gays em busca de um par. Uma ponte feita para nos sentirmos dentro de um mundo fechado, trancafiado nas entranhas labirínticas do ferro. Bianca percebeu que Rubens começara a brincar com a estrutura metálica da ponte, cruzando suas vigas como se fosse criança. O sorriso de Bianca ficou contido pela percepção de que as outras pontes olhavam para ela, que as pontes também são olhares e que no Recife não há como não se sentir vigiado por tantos olhares de pontes solitárias. Usar a ponte como um trampolim, um quebra-cabeça, usá-la como uma ponte sobre a própria ponte e atravessá-la como se atravessa um rio foi uma experiência incrível para Rubens.

Tantas pontes dentro de uma ponte, lugar perfeito para reavivar um amor que transbordava pontes nos olhares. As brincadeiras de Rubens cativaram mais uma vez Bianca, que enxergou naquelas travessuras uma declaração de amor. Rubens atravessava diversas pontes dentro daquela ponte. Rubens parecia esquecer Bianca diante daquela brincadeira labiríntica que lhe proporcionava um orgasmo infinito. Bianca entrou nas entranhas da ponte como se entra numa brincadeira. Despojadas de todo romantismo, aquela ponte transformou todo erotismo numa brincadeira infantil, através da qual se reconciliaram sem necessitar de uma palavra, bem ao modo das crianças.

Enquanto escalava a ponte de ferro, Rubens se sentia dentro de uma ponte infinita, sua experiência com o mundo mágico das pontes chegava ao extremo, ele amava as pontes acima de tudo e apenas Bianca poderia transformar sua existência numa ponte, ninguém é uma ponte sozinho, precisamos de alguém para sermos iguais uma ponte. Todas aquelas pontes ao redor, que por todos os lados seguiam os passos do casal, despencaram em lágrimas emocionadas com o desfecho impossível, inacreditável para aquelas pálpebras cansadas de olhar o horizonte que não mais suportavam carregar sobre suas costas, as pontes choravam de emoção, estremeciam como tudo que ama estremece. Quando por todos os lados nos esbarramos em pontes, é porque o amor não tem saída, o amor infinito é como as pontes infinitas construídas no Recife, cidade perdida em suas pontes e amores infinitamente sem saídas. O amor pede pontes, e por mais que não tenha saída, ele não quer ficar à margem.

Fonte Imagem: https://goo.gl/SxPA43

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