AS CINZAS DE GRAMSCI

Pier Paolo Pasolini

“‘As cinzas de Gramsci’ aparece em “Nuovi argometi” (n. 17-18, 1955-1956, pp. 72-82). O que dá título à coletânea é de fato uma longa elegia em que se Pasolini dirige-se à emblemática figura de Gramsci para poeticamente discutir os posicionamentos possíveis do intelectual ou do artista italiano diante do presente e da nova conjuntura político-social do pós-guerra” (PILATI, A.).

IV

O escândalo de me contradizer, de estar
contigo e contra ti; contigo no coração,
à luz do dia, contra ti na noite das entranhas;

traidor da condição paterrna
– em pensamento, numa sombra de acção –
a ela me liguei no ardor

dos instintos, da paixão estética;
fascinado por uma vida proletária
muito anterior a ti, a minha religião

é a sua alegria, não a sua luta
de milénios: a sua natureza, não a sua
consciência; só a força originária

do homem, que na acção se perdeu,
lhe dá a embriaguez da nostalgia
e um halo poético e mais nada

sei dizer, a não ser o que seria
justo, mas não sincero, amor abstracto,
e não dolorida simpatia…

Pobre como os pobres, agarro-me
como eles a esperanças humilhantes,
como eles, para viver me bato

dia a dia. Mas na minha desoladora
condição de deserdado,
possuo a mais exaltante

das poses burguesas, o bem mais absoluto.
Todavia, se possuo a ,
também a história me possui e me ilumina:

mas de que serve a luz?

Tradução Alexandre Pilati[1]

[1] Alexandre Pilati é professor de literatura brasileira da Universidade de . É autor de A nação drummondiana (7Letras, 2009) e organizador do volume de ensaios: O ainda se pensa – 50 anos de Formação da Literatura Brasileira (Horizonte, 2012). Acaba de lançar o livro de e outros nem tanto assim (7letras, 2015)

 

Fonte da imagem: https://goo.gl/gqSKBa

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