A descoberta de Marx (1949)

Pier Paolo Pasolini

 

Eu sei que os intelectuais em sua juventude sentem realmente inclinação

física para o povo e creêm que isso é amor. Mas não é amor:

é mecânica inclinação à massa. (M. Gorki)

 

“O “A descoberta de Marx” (1949), é publicado em 1958, como fecho do volume de versos L’usignolo della chiesa cattolica. O texto é um canto delicado e intimista que revela dialeticamente a força da visão político-social do poeta a partir da tomada de consciência de alguns procedimentos reflexivos do marxismo” (PILATI, A.).

 

 

I

Pode nascer de uma sombra,

com rosto de menina

e pudor de violetas,

 

um corpo que me estorva

ou, de um colo azul,

uma consciência – sozinha

 

dentro do mundo habitado?

Fora do tempo o filho nasceu

e dentro dele morre.

 

II

 

Sangue mediterrâneo

alta língua românica

e raiz cristã

 

no perfeito estranho

nascido no leito

de uma cidade feliz.

 

Tu eras irreligiosa

bárbara, ou ingênua esposa

e genitora infante.

 

III

 

Como caí

em um mundo de prosa

se eras passarinha,

 

uma cotovia e era mudo

para a – uma rosa –

ou , mãezinha,

 

jovem teu coração?

nesta ordem manifesta

por ti: o mundo me aceita?

 

IV

 

Tu me transmitiste ao coração

já adulto de um tempo

do qual, adolescente,

 

busquei ardendo de amor

as fontes. Ah , educação

adequada ao prepotente

 

sentido do meu século,

sentido único, eco

do Coração preexistente!

 

V

 

E a cada dia me afundo

no mundo racionalizado

impiedosa instituição

 

dos adultos – no mundo

há séculos encalhado

no soar de um Nome:

 

com ele me aprisiono

no estupendo dom

que agora é só razão.

 

VI

 

Mas o peso de uma idade

que força a consciência

e modela o dever

 

quando , em mim , haverá

vencido a resistência

deste leve coração?

 

se, contigo, não tenho alma

de amor, mas uma flama

de suave caridade?

 

VII

 

Não pensavas que o mundo

do qual sou um filho

cego e apaixonado

 

não fosse uma alegre

posse de teu filho,

doce de sonhos, armado

de bondade – mas uma antiga

terra alheia que à vida

dá ânsias de exílio?

 

 

VIII

A língua (da qual soa

em ti apenas uma nota,

na aurora do dialeto)

e o tempo (ao qual doas

tua ingênua e móvel

piedade) são as paredes

por entre as quais entrei,

sedicioso e possuído

por teus olhos mansos.

 

IX

 

Não sujeito mas objeto

mãe! um inquieto fenômeno,

não um deus encarnado

 

com os signos no peito

de ansioso filho! anônima

presença, não desolado

eu! Me exprimiste

no mistério do sexo

para uma lógica Criação.

 

X

 

Mas há na existência

algo mais que amor

pelo próprio destino.

 

É um cálculo sem

milagre que atormenta

ou suspeita que se fende .

 

Nossa história! Dentada

de puro amor,

força racional e divina.

 

Tradução Alexandre Pilati

 

Fonte da Imagem: https://goo.gl/5SvWqK

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